Animais humanos mais velhos, ao garantirem sua própria
sobrevivência na competição com os mais jovens, teriam sido responsáveis pelas
origens das culturas no planeta há centenas de milhares de anos?
Como viviam animais humanos há cem mil anos? E há duzentos
mil anos? Não há nenhuma descrição que possa lançar luz a esses
questionamentos. Os registros mais antigos que temos são vestígios de fogueiras
que datam de cerca de trezentos mil anos, e acampamentos e pinturas rupestres
que datam de aproximadamente cem mil anos. Tais registros sugerem que nossos
ancestrais caçavam e que viviam em pequenos grupos. O registro comprovadamente mais antigo de nossos ancestrais é um fóssil de crânio de
hominídeo que data de cerca de sete milhões de anos.
Sabemos que há uma história natural de nossa espécie no
planeta em que vivemos. Quando observamos o comportamento de indivíduos de
outras espécies, e mesmo dos de nossa própria espécie, constatamos como comportamentos agressivos muitas vezes têm
valor de sobrevivência. É plausível supormos que ancestrais humanos, quando
ainda não havia repertórios verbais elaborados, agiam de modos agressivos ao se
relacionarem uns com os outros. Apenas conseguiam procriar aqueles animais
humanos que, ao longo de sua história, submetiam seus semelhantes por meio de
comportamentos agressivos. A disputa entre machos possivelmente teve um papel
importante na seleção entre aqueles mais aptos à luta.
É plausível supormos também que o animal humano, quando
filhote, para que viesse a sobreviver, convivia durante um longo tempo com o
grupo de seus progenitores. O bico do seio materno constituía um estímulo
apetitivo desde seu nascimento. Filhotes sensíveis ao bico dos seios maternos e
que apresentavam reflexo de sucção, ao longo de gerações e gerações, tinham
probabilidade maior de sobreviver e procriar, de modo a gerarem proles com
sensibilidades inatas similares às suas próprias. Após alguns anos de relação
muito próxima com a mãe, à medida que crescia, o filhote humano tornava-se mais
apto para a luta, passando então a competir com outros machos e também com seu
próprio progenitor, que, por sua vez, necessariamente estava mais envelhecido e
menos apto para a luta. Sugar o bico do seio materno tornava-se gradualmente um
comportamento socialmente inapropriado, que produzia contextos de conflitos e
agressões entre machos. As especulações de Freud em Totem e Tabu, ainda que
passíveis de várias críticas, especialmente em relação àquilo que o autor chamou de
memória arcaica, em termos gerais apontam para algumas possibilidades que não são de
todo implausíveis.
Para que machos mais velhos viessem a sobreviver, era
importante que adquirissem repertórios comportamentais não agressivos,
possivelmente constituídos por vocalizações ou comportamentos gestuais verbais. Machos
humanos mais velhos detinham conhecimentos sobre o mundo que poderiam ser
vitais, de modo que sua sobrevivência poderia aumentar as chances de
sobrevivência do próprio grupo. Grupos em que machos mais velhos fossem
frequentemente mortos em lutas com rivais mais jovens teriam menos chances de
sobreviver, uma vez que importantes estratégias de sobrevivência pereceriam
junto com os mais velhos.
É possível que, dentre a variabilidade comportamental que
aumentava as chances de sobrevivência de machos mais velhos, estivesse presente
o comportamento de prever a ocorrência de eventos naturais. Se machos mais
velhos, ao demonstrarem seu conhecimento sobre o mundo e sua capacidade de
previsão de eventos naturais, impressionavam machos mais jovens, é plausível
supormos que utilizavam tal artifício a seu favor em contextos que lhes garantissem sobrevivência. Tais comportamentos poderiam envolver vocalizações
emitidas em contextos específicos, como, por exemplo, a sinalização do risco
iminente da presença de predadores, de animais peçonhentos, de contextos
favoráveis à obtenção de alimentos, à caça etc. Aprende-se a confiar naqueles
que preveem riscos ou sinalizam fontes de reforçamento positivo. Talvez o
comportamento de confiar seja, em certo sentido, incompatível com
comportamentos agressivos, ou possa diminuir as chances de sua ocorrência, o
que aumentaria então as chances de sobrevivência do grupo.
Machos mais velhos poderiam também prever o surgimento e a
localização no céu de um astro brilhante como Vênus, a iminência do som de
trovões logo após a ocorrência de raios, o efeito de plantas venenosas,
mudanças das estações do ano, etc. Do mesmo modo que um mágico exerce controle
sobre uma audiência ingênua quanto à possibilidade do uso de truques, machos
mais velhos, conhecedores de inúmeras relações entre eventos naturais, poderiam
convencer os demais membros do grupo de que certos eventos naturais seriam
produzidos por suas próprias intervenções. Surgiriam assim os primeiros
indivíduos humanos que exerceriam funções semelhantes às de sacerdotes, xamãs
ou pajés.
Se tais relações possibilitaram a sobrevivência dos machos
mais velhos nos pequenos grupos de animais humanos há centenas de milhares de
anos, talvez tenham também contribuído para o surgimento e a perpetuação das
culturas humanas no planeta. A proibição do acesso de machos mais jovens às
fêmeas poderia ser estabelecida como uma condição necessária para que o grupo
vivesse em maior segurança. Aproximações que permitissem relações sexuais entre
machos mais jovens e determinadas fêmeas do grupo teriam de ser precedidas pela
aprovação de machos mais velhos. Teríamos aí então os primeiros rituais que
selariam a interdição de certos comportamentos nas relações entre os membros do
grupo. Agredir o líder ou fazer sexo sem o seu consentimento tornaram-se tabus,
apoiados em ilusões de controles mágicos de machos mais velhos sobre o mundo.
Tais rituais foram mantidos, uma vez que garantiam maiores chances de
sobrevivência aos grupos nos quais machos eram capazes de sobreviver por mais
tempo.
À medida que o comportamento verbal tornou-se mais e mais
complexo, animais humanos passaram a descrever relações entre eventos
temporalmente mais e mais distantes. John Lubbock, em 1868, em seu livro The Origin
of Civilisation and the Primitive Condition of Man, sugeriu que a má
compreensão do sonho poderia estar na origem do dualismo corpo/alma. Imaginemos
uma fêmea humana cujo filhote foi morto por um predador, e que, ao dormir,
sonhe com este filhote agindo como se estivesse vivo. O que ela pensaria ao
acordar? O que relataria aos outros animais humanos? Possivelmente pensaria que
seu filhote, mesmo morto, havia aparecido e interagido com ela. Caso ela, no
dia seguinte, viesse a ver o corpo de seu filhote morto, o que pensaria? Talvez
viesse a pensar que, ainda que o corpo de seu filhote estivesse ali, inerte, de
algum modo inexplicável, interagira com ela durante o sono. Tal contexto
estabeleceria ocasião para a descrição de que existiam dois diferentes mundos:
um mundo em que apenas os vivos interagem entre si e um mundo em que os mortos
também interagem com os vivos.