domingo, 13 de outubro de 2013

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Animais humanos mais velhos, ao garantirem sua própria sobrevivência na competição com os mais jovens, teriam sido responsáveis pelas origens das culturas no planeta há centenas de milhares de anos?

Como viviam animais humanos há cem mil anos? E há duzentos mil anos? Não há nenhuma descrição que possa lançar luz a esses questionamentos. Os registros mais antigos que temos são vestígios de fogueiras que datam de cerca de trezentos mil anos, e acampamentos e pinturas rupestres que datam de aproximadamente cem mil anos. Tais registros sugerem que nossos ancestrais caçavam e que viviam em pequenos grupos. O registro comprovadamente mais antigo de nossos ancestrais é um fóssil de crânio de hominídeo que data de cerca de sete milhões de anos.

Sabemos que há uma história natural de nossa espécie no planeta em que vivemos. Quando observamos o comportamento de indivíduos de outras espécies, e mesmo dos de nossa própria espécie, constatamos como comportamentos agressivos muitas vezes têm valor de sobrevivência. É plausível supormos que ancestrais humanos, quando ainda não havia repertórios verbais elaborados, agiam de modos agressivos ao se relacionarem uns com os outros. Apenas conseguiam procriar aqueles animais humanos que, ao longo de sua história, submetiam seus semelhantes por meio de comportamentos agressivos. A disputa entre machos possivelmente teve um papel importante na seleção entre aqueles mais aptos à luta.

É plausível supormos também que o animal humano, quando filhote, para que viesse a sobreviver, convivia durante um longo tempo com o grupo de seus progenitores. O bico do seio materno constituía um estímulo apetitivo desde seu nascimento. Filhotes sensíveis ao bico dos seios maternos e que apresentavam reflexo de sucção, ao longo de gerações e gerações, tinham probabilidade maior de sobreviver e procriar, de modo a gerarem proles com sensibilidades inatas similares às suas próprias. Após alguns anos de relação muito próxima com a mãe, à medida que crescia, o filhote humano tornava-se mais apto para a luta, passando então a competir com outros machos e também com seu próprio progenitor, que, por sua vez, necessariamente estava mais envelhecido e menos apto para a luta. Sugar o bico do seio materno tornava-se gradualmente um comportamento socialmente inapropriado, que produzia contextos de conflitos e agressões entre machos. As especulações de Freud em Totem e Tabu, ainda que passíveis de várias críticas, especialmente em relação àquilo que o autor chamou de memória arcaica, em termos gerais apontam para algumas possibilidades que não são de todo implausíveis.

Para que machos mais velhos viessem a sobreviver, era importante que adquirissem repertórios comportamentais não agressivos, possivelmente constituídos por vocalizações ou comportamentos gestuais verbais. Machos humanos mais velhos detinham conhecimentos sobre o mundo que poderiam ser vitais, de modo que sua sobrevivência poderia aumentar as chances de sobrevivência do próprio grupo. Grupos em que machos mais velhos fossem frequentemente mortos em lutas com rivais mais jovens teriam menos chances de sobreviver, uma vez que importantes estratégias de sobrevivência pereceriam junto com os mais velhos.

É possível que, dentre a variabilidade comportamental que aumentava as chances de sobrevivência de machos mais velhos, estivesse presente o comportamento de prever a ocorrência de eventos naturais. Se machos mais velhos, ao demonstrarem seu conhecimento sobre o mundo e sua capacidade de previsão de eventos naturais, impressionavam machos mais jovens, é plausível supormos que utilizavam tal artifício a seu favor em contextos que lhes garantissem sobrevivência. Tais comportamentos poderiam envolver vocalizações emitidas em contextos específicos, como, por exemplo, a sinalização do risco iminente da presença de predadores, de animais peçonhentos, de contextos favoráveis à obtenção de alimentos, à caça etc. Aprende-se a confiar naqueles que preveem riscos ou sinalizam fontes de reforçamento positivo. Talvez o comportamento de confiar seja, em certo sentido, incompatível com comportamentos agressivos, ou possa diminuir as chances de sua ocorrência, o que aumentaria então as chances de sobrevivência do grupo.

Machos mais velhos poderiam também prever o surgimento e a localização no céu de um astro brilhante como Vênus, a iminência do som de trovões logo após a ocorrência de raios, o efeito de plantas venenosas, mudanças das estações do ano, etc. Do mesmo modo que um mágico exerce controle sobre uma audiência ingênua quanto à possibilidade do uso de truques, machos mais velhos, conhecedores de inúmeras relações entre eventos naturais, poderiam convencer os demais membros do grupo de que certos eventos naturais seriam produzidos por suas próprias intervenções. Surgiriam assim os primeiros indivíduos humanos que exerceriam funções semelhantes às de sacerdotes, xamãs ou pajés.

Se tais relações possibilitaram a sobrevivência dos machos mais velhos nos pequenos grupos de animais humanos há centenas de milhares de anos, talvez tenham também contribuído para o surgimento e a perpetuação das culturas humanas no planeta. A proibição do acesso de machos mais jovens às fêmeas poderia ser estabelecida como uma condição necessária para que o grupo vivesse em maior segurança. Aproximações que permitissem relações sexuais entre machos mais jovens e determinadas fêmeas do grupo teriam de ser precedidas pela aprovação de machos mais velhos. Teríamos aí então os primeiros rituais que selariam a interdição de certos comportamentos nas relações entre os membros do grupo. Agredir o líder ou fazer sexo sem o seu consentimento tornaram-se tabus, apoiados em ilusões de controles mágicos de machos mais velhos sobre o mundo. Tais rituais foram mantidos, uma vez que garantiam maiores chances de sobrevivência aos grupos nos quais machos eram capazes de sobreviver por mais tempo.

À medida que o comportamento verbal tornou-se mais e mais complexo, animais humanos passaram a descrever relações entre eventos temporalmente mais e mais distantes. John Lubbock, em 1868, em seu livro The Origin of Civilisation and the Primitive Condition of Man, sugeriu que a má compreensão do sonho poderia estar na origem do dualismo corpo/alma. Imaginemos uma fêmea humana cujo filhote foi morto por um predador, e que, ao dormir, sonhe com este filhote agindo como se estivesse vivo. O que ela pensaria ao acordar? O que relataria aos outros animais humanos? Possivelmente pensaria que seu filhote, mesmo morto, havia aparecido e interagido com ela. Caso ela, no dia seguinte, viesse a ver o corpo de seu filhote morto, o que pensaria? Talvez viesse a pensar que, ainda que o corpo de seu filhote estivesse ali, inerte, de algum modo inexplicável, interagira com ela durante o sono. Tal contexto estabeleceria ocasião para a descrição de que existiam dois diferentes mundos: um mundo em que apenas os vivos interagem entre si e um mundo em que os mortos também interagem com os vivos.