sexta-feira, 6 de junho de 2014

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Àqueles que aceitam a plausibilidade da hipótese de que nosso sentir, pensar e agir ocorrem em função de eventos anteriores ocorridos na história de nossa espécie e em nossa história individual, a qual, por sua vez, ocorre entremeada pelo que chamamos de cultura, permanece um questionamento: que responsabilidade pode ser atribuída ao indivíduo em relação àquilo que ele veio a ser?

Responsabilidade é uma palavra delicada, bem como o adjetivo responsável. Quando dizemos que alguém é responsável, geralmente estamos dizendo que este alguém reconhece e descreve relações entre suas ações e as consequências de suas ações. No entanto, todas as nossas ações apenas ocorrem em função de uma história sobre a qual tivemos pouco controle. Não escolhemos o organismo com o qual aparecemos no mundo, tampouco a cultura na qual nos tornamos quem somos. Não escolhemos a família na qual passamos os primeiros anos de vida, os indivíduos próximos com quem convivemos ainda bem precocemente e nem mesmo o idioma que passamos a falar ao sermos modificados nas relações sociais que travamos com o mundo social que nos rodeia. Já nascemos gritando e recebendo alimento, aconchego, alívio etc. À medida que somos modificados pelo mundo social e adquirimos repertório verbal, passamos a exercer controles bastante sutis sobre o responder daqueles com quem convivemos, mas é importante ressaltar que mesmo tais possibilidades de exercer controle apenas ocorrem em função de uma história sobre a qual não tivemos controle. Se alguém julga errada a atitude de outrem e o denuncia às autoridades para que seja punido, isso ocorre em função de uma infinidade de eventos na vida do denunciante, os quais são responsáveis pelo seu sentir, julgar e agir atual. Caso o denunciante tivesse tido uma história diferente, talvez fosse ele o denunciado.

Todas as nossas formas de exercer controle apenas ocorrem em função de uma história prévia sobre a qual pouco ou nenhum controle tivemos. Tal constatação nos leva a pensar que não há como atribuir responsabilidade ao indivíduo em relação àquilo que ele veio a ser no mundo. Se tivesse tido outra história, seria outra pessoa, outro eu, que sentiria, pensaria e agiria de modos diferentes. Em suma, todos nós fomos modificados por uma história singular, que em grande medida escapou às nossas possibilidades de controle, e nos tornamos quem somos em função dessa história.

Mas como podemos nos sentir responsáveis? Como aprendemos a atribuir responsabilidade aos outros e a nós mesmos? Uma possível resposta envolve o comportamento de confiar. Confiamos naqueles que nos demonstram compreender relações que regem o mundo e que, assim, conseguem exercer controles apropriados sobre o mundo. Não há necessidade de afirmarmos que um indivíduo é “responsável” por aquilo que ele é (ou se tornou no mundo) para que sejamos capazes de lhe atribuir responsabilidade. Atribuímos responsabilidade àqueles em quem confiamos, e, do mesmo modo, passamos a nos sentir “responsáveis” quando nos percebemos seguros de nossa capacidade de realizar algo que nos importa realizar. Se estivermos em um avião e não soubermos pilotá-lo, chamaremos alguém que saiba fazê-lo. Este alguém se tornou quem é em função de uma história que, quando descrita em detalhes, inevitavelmente nos leva ao questionamento do que se costuma conceber como mérito. Do mesmo modo, podemos questionar o que chamamos de culpa.

Quando descrevemos o papel da cultura em que nascemos, da história biológica de nossa espécie e de nossa história individual na formação de nosso eu, passamos a ser capazes de questionar aspectos positivos e negativos de como o acontecer produz “eus” no mundo. Trata-se de um passo que parece essencial para que nos tornemos capazes de produzir mudanças que nos sejam benéficas no ambiente físico e social em que vivemos. Não há nenhum mérito e nenhuma culpa em sermos quem somos, mas, ainda assim, todos nós por vezes nos sentimos orgulhosos ou culpados, realizados ou envergonhados.

Compreender que há uma história responsável pelo ser atual de cada um nos leva ao questionamento da noção de responsabilidade individual. Ao mesmo tempo, tal compreensão, aliada à descrição de nossa própria história (inclusive aquela que nos antecede, em termos biológicos e culturais), pode nos tornar capazes de questionar como a história que nos moldou se relaciona com os contextos atuais, de modo que nos tornamos mais capazes de exercer controle sobre o mundo em que vivemos (e, em certa medida, também sobre nós mesmos, nossas vontades e desejos). Paradoxalmente, ao desmistificarmos a noção de responsabilidade do indivíduo e ao afirmarmos a importância de descrevermos como viemos a nos tornar quem somos, criamos contexto para que nos tornemos mais responsáveis (ou mais confiáveis como pilotos do acontecer), na medida em que nos tornamos mais aptos a produzir mudanças relevantes nas condições atuais que nos afetam.