sexta-feira, 6 de junho de 2014

28

Àqueles que aceitam a plausibilidade da hipótese de que nosso sentir, pensar e agir ocorrem em função de eventos anteriores ocorridos na história de nossa espécie e em nossa história individual, a qual, por sua vez, ocorre entremeada pelo que chamamos de cultura, permanece um questionamento: que responsabilidade pode ser atribuída ao indivíduo em relação àquilo que ele veio a ser?

Responsabilidade é uma palavra delicada, bem como o adjetivo responsável. Quando dizemos que alguém é responsável, geralmente estamos dizendo que este alguém reconhece e descreve relações entre suas ações e as consequências de suas ações. No entanto, todas as nossas ações apenas ocorrem em função de uma história sobre a qual tivemos pouco controle. Não escolhemos o organismo com o qual aparecemos no mundo, tampouco a cultura na qual nos tornamos quem somos. Não escolhemos a família na qual passamos os primeiros anos de vida, os indivíduos próximos com quem convivemos ainda bem precocemente e nem mesmo o idioma que passamos a falar ao sermos modificados nas relações sociais que travamos com o mundo social que nos rodeia. Já nascemos gritando e recebendo alimento, aconchego, alívio etc. À medida que somos modificados pelo mundo social e adquirimos repertório verbal, passamos a exercer controles bastante sutis sobre o responder daqueles com quem convivemos, mas é importante ressaltar que mesmo tais possibilidades de exercer controle apenas ocorrem em função de uma história sobre a qual não tivemos controle. Se alguém julga errada a atitude de outrem e o denuncia às autoridades para que seja punido, isso ocorre em função de uma infinidade de eventos na vida do denunciante, os quais são responsáveis pelo seu sentir, julgar e agir atual. Caso o denunciante tivesse tido uma história diferente, talvez fosse ele o denunciado.

Todas as nossas formas de exercer controle apenas ocorrem em função de uma história prévia sobre a qual pouco ou nenhum controle tivemos. Tal constatação nos leva a pensar que não há como atribuir responsabilidade ao indivíduo em relação àquilo que ele veio a ser no mundo. Se tivesse tido outra história, seria outra pessoa, outro eu, que sentiria, pensaria e agiria de modos diferentes. Em suma, todos nós fomos modificados por uma história singular, que em grande medida escapou às nossas possibilidades de controle, e nos tornamos quem somos em função dessa história.

Mas como podemos nos sentir responsáveis? Como aprendemos a atribuir responsabilidade aos outros e a nós mesmos? Uma possível resposta envolve o comportamento de confiar. Confiamos naqueles que nos demonstram compreender relações que regem o mundo e que, assim, conseguem exercer controles apropriados sobre o mundo. Não há necessidade de afirmarmos que um indivíduo é “responsável” por aquilo que ele é (ou se tornou no mundo) para que sejamos capazes de lhe atribuir responsabilidade. Atribuímos responsabilidade àqueles em quem confiamos, e, do mesmo modo, passamos a nos sentir “responsáveis” quando nos percebemos seguros de nossa capacidade de realizar algo que nos importa realizar. Se estivermos em um avião e não soubermos pilotá-lo, chamaremos alguém que saiba fazê-lo. Este alguém se tornou quem é em função de uma história que, quando descrita em detalhes, inevitavelmente nos leva ao questionamento do que se costuma conceber como mérito. Do mesmo modo, podemos questionar o que chamamos de culpa.

Quando descrevemos o papel da cultura em que nascemos, da história biológica de nossa espécie e de nossa história individual na formação de nosso eu, passamos a ser capazes de questionar aspectos positivos e negativos de como o acontecer produz “eus” no mundo. Trata-se de um passo que parece essencial para que nos tornemos capazes de produzir mudanças que nos sejam benéficas no ambiente físico e social em que vivemos. Não há nenhum mérito e nenhuma culpa em sermos quem somos, mas, ainda assim, todos nós por vezes nos sentimos orgulhosos ou culpados, realizados ou envergonhados.

Compreender que há uma história responsável pelo ser atual de cada um nos leva ao questionamento da noção de responsabilidade individual. Ao mesmo tempo, tal compreensão, aliada à descrição de nossa própria história (inclusive aquela que nos antecede, em termos biológicos e culturais), pode nos tornar capazes de questionar como a história que nos moldou se relaciona com os contextos atuais, de modo que nos tornamos mais capazes de exercer controle sobre o mundo em que vivemos (e, em certa medida, também sobre nós mesmos, nossas vontades e desejos). Paradoxalmente, ao desmistificarmos a noção de responsabilidade do indivíduo e ao afirmarmos a importância de descrevermos como viemos a nos tornar quem somos, criamos contexto para que nos tornemos mais responsáveis (ou mais confiáveis como pilotos do acontecer), na medida em que nos tornamos mais aptos a produzir mudanças relevantes nas condições atuais que nos afetam.



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

27

Quando machucamos uma pessoa que amamos, às vezes continuamos a machucá-la até que ela também nos machuque, pois isso ameniza o mal-estar e a culpa por a termos machucado.

26

Viver é como entrar em uma caverna inundada e nela se perder com um tanque de oxigênio às costas, sem saber exatamente até quando ele vai durar. Tentar sair da caverna é pura perda de tempo e a única certeza é de que o oxigênio, que não sabemos de onde veio, um dia acabará. Enquanto não acaba, e independente de quando isso vai acontecer, o que vale a pena é ir aos pouquinhos descobrindo as belezas escondidas na caverna, torná-la um lugar mais agradável para se viver e interagir com aqueles que também estão com seus tanquinhos às costas. Algumas coisas que fazemos, tanto conosco quanto com os outros, furam nossos tanques e deixam o ar escapar, às vezes lentamente, às vezes de uma vez só. Quando isso acontece, é importante consertar logo, ainda que para tanto seja preciso pedir algum tipo de ajuda. Não há nenhuma evidência de que exista algo a mais fora da caverna. Portanto, cuidemos bem dela.

domingo, 13 de outubro de 2013

25

Animais humanos mais velhos, ao garantirem sua própria sobrevivência na competição com os mais jovens, teriam sido responsáveis pelas origens das culturas no planeta há centenas de milhares de anos?

Como viviam animais humanos há cem mil anos? E há duzentos mil anos? Não há nenhuma descrição que possa lançar luz a esses questionamentos. Os registros mais antigos que temos são vestígios de fogueiras que datam de cerca de trezentos mil anos, e acampamentos e pinturas rupestres que datam de aproximadamente cem mil anos. Tais registros sugerem que nossos ancestrais caçavam e que viviam em pequenos grupos. O registro comprovadamente mais antigo de nossos ancestrais é um fóssil de crânio de hominídeo que data de cerca de sete milhões de anos.

Sabemos que há uma história natural de nossa espécie no planeta em que vivemos. Quando observamos o comportamento de indivíduos de outras espécies, e mesmo dos de nossa própria espécie, constatamos como comportamentos agressivos muitas vezes têm valor de sobrevivência. É plausível supormos que ancestrais humanos, quando ainda não havia repertórios verbais elaborados, agiam de modos agressivos ao se relacionarem uns com os outros. Apenas conseguiam procriar aqueles animais humanos que, ao longo de sua história, submetiam seus semelhantes por meio de comportamentos agressivos. A disputa entre machos possivelmente teve um papel importante na seleção entre aqueles mais aptos à luta.

É plausível supormos também que o animal humano, quando filhote, para que viesse a sobreviver, convivia durante um longo tempo com o grupo de seus progenitores. O bico do seio materno constituía um estímulo apetitivo desde seu nascimento. Filhotes sensíveis ao bico dos seios maternos e que apresentavam reflexo de sucção, ao longo de gerações e gerações, tinham probabilidade maior de sobreviver e procriar, de modo a gerarem proles com sensibilidades inatas similares às suas próprias. Após alguns anos de relação muito próxima com a mãe, à medida que crescia, o filhote humano tornava-se mais apto para a luta, passando então a competir com outros machos e também com seu próprio progenitor, que, por sua vez, necessariamente estava mais envelhecido e menos apto para a luta. Sugar o bico do seio materno tornava-se gradualmente um comportamento socialmente inapropriado, que produzia contextos de conflitos e agressões entre machos. As especulações de Freud em Totem e Tabu, ainda que passíveis de várias críticas, especialmente em relação àquilo que o autor chamou de memória arcaica, em termos gerais apontam para algumas possibilidades que não são de todo implausíveis.

Para que machos mais velhos viessem a sobreviver, era importante que adquirissem repertórios comportamentais não agressivos, possivelmente constituídos por vocalizações ou comportamentos gestuais verbais. Machos humanos mais velhos detinham conhecimentos sobre o mundo que poderiam ser vitais, de modo que sua sobrevivência poderia aumentar as chances de sobrevivência do próprio grupo. Grupos em que machos mais velhos fossem frequentemente mortos em lutas com rivais mais jovens teriam menos chances de sobreviver, uma vez que importantes estratégias de sobrevivência pereceriam junto com os mais velhos.

É possível que, dentre a variabilidade comportamental que aumentava as chances de sobrevivência de machos mais velhos, estivesse presente o comportamento de prever a ocorrência de eventos naturais. Se machos mais velhos, ao demonstrarem seu conhecimento sobre o mundo e sua capacidade de previsão de eventos naturais, impressionavam machos mais jovens, é plausível supormos que utilizavam tal artifício a seu favor em contextos que lhes garantissem sobrevivência. Tais comportamentos poderiam envolver vocalizações emitidas em contextos específicos, como, por exemplo, a sinalização do risco iminente da presença de predadores, de animais peçonhentos, de contextos favoráveis à obtenção de alimentos, à caça etc. Aprende-se a confiar naqueles que preveem riscos ou sinalizam fontes de reforçamento positivo. Talvez o comportamento de confiar seja, em certo sentido, incompatível com comportamentos agressivos, ou possa diminuir as chances de sua ocorrência, o que aumentaria então as chances de sobrevivência do grupo.

Machos mais velhos poderiam também prever o surgimento e a localização no céu de um astro brilhante como Vênus, a iminência do som de trovões logo após a ocorrência de raios, o efeito de plantas venenosas, mudanças das estações do ano, etc. Do mesmo modo que um mágico exerce controle sobre uma audiência ingênua quanto à possibilidade do uso de truques, machos mais velhos, conhecedores de inúmeras relações entre eventos naturais, poderiam convencer os demais membros do grupo de que certos eventos naturais seriam produzidos por suas próprias intervenções. Surgiriam assim os primeiros indivíduos humanos que exerceriam funções semelhantes às de sacerdotes, xamãs ou pajés.

Se tais relações possibilitaram a sobrevivência dos machos mais velhos nos pequenos grupos de animais humanos há centenas de milhares de anos, talvez tenham também contribuído para o surgimento e a perpetuação das culturas humanas no planeta. A proibição do acesso de machos mais jovens às fêmeas poderia ser estabelecida como uma condição necessária para que o grupo vivesse em maior segurança. Aproximações que permitissem relações sexuais entre machos mais jovens e determinadas fêmeas do grupo teriam de ser precedidas pela aprovação de machos mais velhos. Teríamos aí então os primeiros rituais que selariam a interdição de certos comportamentos nas relações entre os membros do grupo. Agredir o líder ou fazer sexo sem o seu consentimento tornaram-se tabus, apoiados em ilusões de controles mágicos de machos mais velhos sobre o mundo. Tais rituais foram mantidos, uma vez que garantiam maiores chances de sobrevivência aos grupos nos quais machos eram capazes de sobreviver por mais tempo.

À medida que o comportamento verbal tornou-se mais e mais complexo, animais humanos passaram a descrever relações entre eventos temporalmente mais e mais distantes. John Lubbock, em 1868, em seu livro The Origin of Civilisation and the Primitive Condition of Man, sugeriu que a má compreensão do sonho poderia estar na origem do dualismo corpo/alma. Imaginemos uma fêmea humana cujo filhote foi morto por um predador, e que, ao dormir, sonhe com este filhote agindo como se estivesse vivo. O que ela pensaria ao acordar? O que relataria aos outros animais humanos? Possivelmente pensaria que seu filhote, mesmo morto, havia aparecido e interagido com ela. Caso ela, no dia seguinte, viesse a ver o corpo de seu filhote morto, o que pensaria? Talvez viesse a pensar que, ainda que o corpo de seu filhote estivesse ali, inerte, de algum modo inexplicável, interagira com ela durante o sono. Tal contexto estabeleceria ocasião para a descrição de que existiam dois diferentes mundos: um mundo em que apenas os vivos interagem entre si e um mundo em que os mortos também interagem com os vivos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

24

Dava

E num dado momento,
inundado momento de ideias frouxas,
a garotinha agora tinha versos
feitos em sua intenção.
Corava e orava,
e o coração pranteava
o que a oração cortava.
E não dava... Inundava...
A volúpia enxurrava
o que a fé enxugava.
E, então, levada, dava.

domingo, 26 de maio de 2013

23

Sobre o preconceito –

Algo que nos pode levar a questionar o chamado preconceito é quando os chamados preconceituosos alegam serem vítimas de preconceito justamente por pensarem de modo preconceituoso. Isso nos leva a pensar que toda e qualquer opinião é, teoricamente, um preconceito. As próprias palavras empregadas em uma fala contrária a uma fala preconceituosa são também constituídas de pré-conceitos. Há quem diga que toda e qualquer palavra de todo e qualquer idioma é um pré-conceito, e é difícil para aqueles que estudam o fenômeno da aprendizagem e do comportamento verbal argumentarem contra essa assertiva, que parece ser uma constatação. No entanto, talvez aquilo que chamamos de preconceito vá além do comportamento verbal. Poderíamos nos questionar se estaria agindo de modo preconceituoso um cão que nunca viu uma pessoa negra e que late com estranheza ao ver um negro entrando em seu território. Estaria agindo de modo preconceituoso um bebê que chora ao ser carregado por uma pessoa com uma grande deformidade facial, diferente de todas as pessoas que ele até então já tenha visto? Considero que não. As noções do que é ou não preconceito são aprendidas na cultura em que se nasce e se aprende. Ou seja, são também preconceitos. Compete a nós definirmos, de modos cuidadosos, quais os preconceitos que devem ser culturalmente mantidos e quais aqueles que devemos considerar perniciosos para a sobrevivência do animal humano nesse planeta em que vivemos.

domingo, 14 de abril de 2013

22

A cordialidade é um trunfo para aqueles que têm razão em uma discussão.