Àqueles que aceitam a
plausibilidade da hipótese de que nosso sentir, pensar e agir ocorrem em função
de eventos anteriores ocorridos na história de nossa espécie e em nossa
história individual, a qual, por sua vez, ocorre entremeada pelo que chamamos
de cultura, permanece um questionamento: que responsabilidade pode ser
atribuída ao indivíduo em relação àquilo que ele veio a ser?
Responsabilidade é uma
palavra delicada, bem como o adjetivo responsável. Quando dizemos que alguém é
responsável, geralmente estamos dizendo que este alguém reconhece e descreve
relações entre suas ações e as consequências de suas ações. No entanto, todas
as nossas ações apenas ocorrem em função de uma história sobre a qual tivemos
pouco controle. Não escolhemos o organismo com o qual aparecemos no mundo,
tampouco a cultura na qual nos tornamos quem somos. Não escolhemos a família na
qual passamos os primeiros anos de vida, os indivíduos próximos com quem
convivemos ainda bem precocemente e nem mesmo o idioma que passamos a falar ao
sermos modificados nas relações sociais que travamos com o mundo social que nos
rodeia. Já nascemos gritando e recebendo alimento, aconchego, alívio etc. À
medida que somos modificados pelo mundo social e adquirimos repertório verbal,
passamos a exercer controles bastante sutis sobre o responder daqueles com quem
convivemos, mas é importante ressaltar que mesmo tais possibilidades de exercer
controle apenas ocorrem em função de uma história sobre a qual não tivemos controle.
Se alguém julga errada a atitude de outrem e o denuncia às autoridades para que
seja punido, isso ocorre em função de uma infinidade de eventos na vida do
denunciante, os quais são responsáveis pelo seu sentir, julgar e agir atual. Caso o
denunciante tivesse tido uma história diferente, talvez fosse ele o denunciado.
Todas as nossas formas de
exercer controle apenas ocorrem em função de uma história prévia sobre a qual
pouco ou nenhum controle tivemos. Tal constatação nos leva a pensar que não há
como atribuir responsabilidade ao indivíduo em relação àquilo que ele veio a
ser no mundo. Se tivesse tido outra história, seria outra pessoa, outro eu, que
sentiria, pensaria e agiria de modos diferentes. Em suma, todos nós fomos
modificados por uma história singular, que em grande medida escapou às nossas
possibilidades de controle, e nos tornamos quem somos em função dessa história.
Mas como podemos nos sentir
responsáveis? Como aprendemos a atribuir responsabilidade aos outros e a nós
mesmos? Uma possível resposta envolve o comportamento de confiar. Confiamos
naqueles que nos demonstram compreender relações que regem o mundo e que,
assim, conseguem exercer controles apropriados sobre o mundo. Não há
necessidade de afirmarmos que um indivíduo é “responsável” por aquilo que ele é
(ou se tornou no mundo) para que sejamos capazes de lhe atribuir
responsabilidade. Atribuímos responsabilidade àqueles em quem confiamos, e, do
mesmo modo, passamos a nos sentir “responsáveis” quando nos percebemos seguros
de nossa capacidade de realizar algo que nos importa realizar. Se estivermos em
um avião e não soubermos pilotá-lo, chamaremos alguém que saiba fazê-lo. Este
alguém se tornou quem é em função de uma história que, quando descrita em
detalhes, inevitavelmente nos leva ao questionamento do que se costuma conceber
como mérito. Do mesmo modo, podemos questionar o que chamamos de culpa.
Quando descrevemos o papel
da cultura em que nascemos, da história biológica de nossa espécie e de nossa
história individual na formação de nosso eu, passamos a ser capazes de
questionar aspectos positivos e negativos de como o acontecer produz “eus” no
mundo. Trata-se de um passo que parece essencial para que nos tornemos capazes
de produzir mudanças que nos sejam benéficas no ambiente físico e social em que
vivemos. Não há nenhum mérito e nenhuma culpa em sermos quem somos, mas, ainda
assim, todos nós por vezes nos sentimos orgulhosos ou culpados, realizados ou
envergonhados.
Compreender
que há uma história responsável pelo ser atual de cada um nos leva ao
questionamento da noção de responsabilidade individual. Ao mesmo tempo, tal
compreensão, aliada à descrição de nossa própria história (inclusive aquela que
nos antecede, em termos biológicos e culturais), pode nos tornar capazes de
questionar como a história que nos moldou se relaciona com os contextos atuais,
de modo que nos tornamos mais capazes de exercer controle sobre o mundo em que
vivemos (e, em certa medida, também sobre nós mesmos, nossas vontades e desejos).
Paradoxalmente, ao desmistificarmos a noção de responsabilidade do indivíduo e
ao afirmarmos a importância de descrevermos como viemos a nos tornar quem
somos, criamos contexto para que nos tornemos mais responsáveis (ou mais
confiáveis como pilotos do acontecer), na medida em que nos tornamos mais aptos
a produzir mudanças relevantes nas condições atuais que nos afetam.